Preservação Integral x Sustentabilidade: caminhos opostos que se complementam
Com a crescente degradação da natureza após a evolução industrial, o
ser humano viu-se diante do dilema de preservar a natureza, diante da
escassez dos recursos naturais e da ameaça à sua própria sobrevivência.
Seguindo
o modelo norte-americano, países da América Latina criaram áreas de
preservação protegidas por lei, como forma eficaz de coibir a degradação
ambiental.
Entretanto, a grande parte destas áreas possuem uma
população nativa de indígenas ou de sertanejos (mestiços) que, segundo
alguns especialistas e o imaginário popular, teriam um modo de vida mais
harmônica ao meio ambiente, estando cientes de sua dependência
econômica e existencial e, consequentemente, manteriam uma relação de
sustentabilidade ambiental, algo muito diferente do contexto industrial
contemporâneo.
O problema surge com a questão da metodologia e das
estratégias para manter a preservação dessas reservas naturais e sua
população. Muitos ecologistas adeptos de visão mais tecnicista e
conservadora, alertam para o fato de que somente áreas sem a presença
humana podem ser preservadas integralmente. Alegam que a convivência do
homem com a natureza sempre vem acompanhada da exploração desta, mesmo
no caso de populações indígenas habituadas no meio florestal. Comprovam
através de dados geológicos e históricos que mesmo os indígenas na era
pré-cabralina tinham explorado consideravelmente a natureza, levando à
extinção, além disso, inúmeras espécies vegetais e animais. Assim, o
ideal do "bom selvagem" é fruto de um pensamento coletivo do século
XVIII, herdeiro das teorias naturalistas de Rousseau.
Por outro
lado, grande parte dos ambientalistas seguem um modelo bem diverso na
apreciação deste problema. Alegam que é possível a convivência harmônica
e sustentável do homem com a natureza, nos moldes das populações
indígenas, sertanejas e ribeirinhas, enquanto afastadas do contato do
mundo capitalista-industrial. Além de conservarem o meio em que vivem,
alguns especialistas afirmam que certas espécies de vegetais e animais
dependem sobremaneira dessa relação homem/natureza.
Decerto,
ambas as correntes de análise tem seus méritos e trazem verdades que
podem auxiliar a compreender a realidade socioambiental, mas deve-se
admitir que ambas tratam a questão de forma unilateral. É evidente que o
ser humano, desde os primórdios, explora o meio em que vive.
Desmistificar certas imagens construídas pelo tempo é essencial na busca
de cientificidade nas análises. Cultuar o ideal do nativo ou sertanejo
alheio ao mundo moderno é romancear a questão, uma vez que esse status
quo só é mantido se as condições de isolamento social forem mantidas.
Caso contrário, o "bom selvagem" acaba se transformando num capitalista
que prefere vender a madeira de suas terras para se acomodar ao mundo
moderno.
Entretanto, a expulsão ou a retirada das populações
nativas ou sertanejas das áreas de preservação é uma solução unilateral e
simplória que pode provocar mais miséria, uma vez que essas populações
não tem condições educacionais e profissionais para engajarem na
sociedade industrial.
Nesse sentido, a postura socioambiental é
mais acertada na maioria dos casos, tendo em vista a preservação
sociocultural dessas populações.
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